O teu melhor também te pode cansar
Nem sempre o que te pesa vem das tuas falhas. Às vezes vem de levares longe demais uma qualidade tua.
O primeiro trimestre acabou de fechar. E, com essa mudança de ciclo, chega aquele momento em que fazemos contas. À empresa, aos objectivos, aos números. E também a nós próprios.
Nem sempre essa revisão é simples.
Há fases em que o cansaço não vem de ter feito pouco. Vem precisamente do contrário. Vem de ter estado sempre disponível, de ter segurado mais do que era suposto, de ter insistido, resolvido, antecipado, aguentado.
O mais confuso é que, muitas vezes, tudo isto parece virtude.
“Fui resiliente.”
“Estive lá para os outros.”
“Fiz o que era preciso.”
“Não deixei cair nada.”
E, no entanto, chegas ao fim destes três meses mais cansado do que devias.
Talvez o problema não esteja nas tuas falhas. Talvez esteja no excesso de algumas das tuas forças de carácter.
A classificação VIA identifica 24 forças de carácter, entre elas perseverança, bondade, prudência, honestidade, liderança, curiosidade, esperança e autorregulação. O ponto importante aqui é simples: uma força, quando usada em excesso, pode deixar de ajudar e começar a pesar.
O problema não é a força. É a dose.
Uma força equilibrada serve-te. Uma força em excesso começa a mandar em ti.
A perseverança é um bom exemplo. Ajuda-te a continuar, a terminar, a não desistir cedo demais. Mas, quando passa do ponto, transforma-se em dificuldade em largar o que já não faz sentido. Insistes mais do que precisas, prolongas o desgaste e começas a confundir persistência com teimosia.
A bondade também é valiosa. Aproxima, cria confiança, torna-te disponível para os outros. Mas, em excesso, pode levar-te a ficar sempre do lado das necessidades alheias, deixando as tuas para depois. Vais ajudando, cedendo, acomodando, até começares a sentir que já não tens espaço.
A prudência protege-te. Ajuda-te a pensar antes de agir, a medir riscos, a evitar erros desnecessários. Mas, quando sobe demasiado, transforma-se em excesso de cautela. Adias, hesitas, voltas a analisar, e a decisão que precisava de clareza fica presa à espera de uma certeza que nunca chega por completo.
A honestidade é outra força valiosa. Traz integridade, frontalidade e verdade. Mas, sem regulação, pode endurecer o tom. O que querias que fosse clareza passa a soar como dureza. E, às vezes, a verdade que dizes até está certa, mas a forma como chega fecha mais do que abre.
É aqui que esta reflexão ganha valor.
Nem sempre precisas de corrigir um defeito. Às vezes precisas apenas de ajustar a dose de uma qualidade tua.
O ajuste mínimo
Na passagem de um trimestre para o outro, a tentação é prometer mudanças grandes para o período seguinte. Reorganizar tudo. Fazer diferente em tudo. Começar do zero.
Quase nunca é isso que resulta.
O que costuma fazer mais diferença é um ajuste pequeno e concreto.
Se a tua liderança tem estado pesada, talvez não precises de liderar menos. Talvez precises de abrir mais espaço a contributos e responsabilidade partilhada.
Se o teu pensamento crítico te tem puxado para o lado mais duro de tudo, talvez precises de reintroduzir alguma esperança ou gratidão para não leres a realidade sempre pelo filtro do que falta.
Se a tua autorregulação se está a transformar em rigidez, talvez o ajuste não seja largares a disciplina. Talvez seja deixares entrar um pouco mais de leveza, curiosidade ou humor.
O objectivo não é perder a força.
É voltar a usá-la a teu favor.
Na entrada no segundo trimestre
Talvez este momento não peça mais pressão. Talvez peça mais lucidez.
Em vez de perguntares apenas “o que faltou fazer?”, experimenta perguntar:
Qual foi a força que mais me ajudou nestes últimos meses?
E em que momento começou a custar-me mais do que devia?
Esta pergunta vale muito porque desloca o foco da culpa para a clareza.
Nem tudo o que tens de melhor está automaticamente em equilíbrio. E nem tudo o que os outros valorizam em ti está, neste momento, a ser sustentável para ti.
Entrar bem neste novo trimestre pode não depender de te tornares outra pessoa.
Pode depender de reconheceres que até as tuas melhores qualidades precisam de medida.
Porque, às vezes, o que te está a cansar não é aquilo em que és fraco.
É aquilo que tens usado em excesso, durante tempo demais.
Bom arranque de trimestre.
P.S.: As forças mencionadas fazem parte da classificação científica do VIA Institute on Character, que identifica 24 qualidades universais que todos possuímos em diferentes graus.