Entre o que foi dito e o que ouviste
O que aconteceu e o que isso significou nem sempre são a mesma coisa.
Estás numa reunião de equipa. Apresentas uma proposta e uma colega diz: «Antes de avançarmos, precisamos de rever os prazos.»
O facto é este: ela pediu para rever os prazos.
Mas o que ouviste pode ter sido outra coisa: «Ela não confia no meu trabalho.» ou «Está sempre a travar as minhas ideias.»
Pode haver razões para pensar assim ou ela pode ter identificado um risco que ainda não viste. Naquele momento, sabes o que foi dito; ainda não sabes o que a levou a dizê-lo.
A história que construímos em segundos
Sob pressão, uma interpretação pode surgir tão depressa que parece um facto. O corpo reage, a resposta fica pronta e, quando damos por isso, já estamos a defender-nos de uma intenção que nunca confirmámos.
«Já expliquei isso três vezes.»
«Se não concordas, diz logo.»
«Assim nunca conseguimos decidir.»
A reunião deixa de estar centrada nos prazos e passa a girar em torno da relação entre duas pessoas.
Separar factos de interpretações não obriga a ignorar o desconforto nem a aceitar tudo o que o outro diz. Dá-te espaço para perceber o que está a acontecer antes de escolheres como responder.
O que a Inteligência Emocional pede nesta conversa
No primeiro artigo desta série, olhámos para os hábitos que uma equipa vai criando: o espaço para discordar, pedir ajuda ou falar quando algo corre mal. Esses hábitos também se constroem em pequenos momentos como este.
O Mapa da Inteligência Emocional ajuda a reconhecer as competências em jogo:
Autoconsciência (perceber o que acontece em mim): reparo que o comentário me deixou na defensiva.
Autogestão (escolher como respondo): faço uma pausa antes de responder no mesmo tom.
Consciência social (perceber o que acontece à minha volta): considero que a minha colega pode estar a ver um risco que me escapou.
Gestão das relações (cuidar do que acontece entre nós): faço uma pergunta que nos ajude a avançar.
Na prática, a resposta pode ser simples:
«Quando dizes que precisamos de rever os prazos, qual é a tua principal preocupação?»
A pergunta permite testar a interpretação. A preocupação pode estar numa dependência de outra equipa, na falta de capacidade para executar ou numa discordância sobre a proposta. Cada uma destas situações pede uma conversa diferente.
Três perguntas antes de responder
Da próxima vez que uma frase te fizer reagir numa reunião, experimenta passar por estas perguntas:
O que foi dito ou feito, especificamente?
Que significado lhe estou a atribuir?
O que preciso de perguntar para compreender melhor?
Podes fazer este exercício mentalmente em poucos segundos. Se lideras a reunião, podes trazer a mesma distinção para o grupo: «O que sabemos até agora? O que estamos a assumir?»
Quando isto se torna habitual, a equipa passa mais tempo a discutir o problema que tem à frente e menos tempo presa às intenções que cada pessoa atribui às outras.
Esta é a segunda parte de uma série de três artigos sobre Inteligência Emocional nas equipas.
Uma pergunta para levares contigo
Qual destas competências te será mais útil na próxima reunião: reconhecer a tua reacção, regular a resposta, compreender outra perspectiva ou cuidar da conversa?
O Mapa da Inteligência Emocional acompanha as três partes desta série. Se quiseres usá-lo para olhares para a tua próxima conversa ou reunião de equipa, acede ao Mapa aqui. Ao preencheres o formulário, terás acesso ao recurso e podes subscrever a newsletter Uma pausa de clareza, enviada às quintas-feiras.