Forças de carácter: o que já funciona bem em ti

Antes de procurares o que corrigir, vale a pena saberes em que te apoias.

Alguém te diz "és mesmo bom a pôr as pessoas à vontade" e respondes quase sem pensar: "Ah, não é nada." Mudas de assunto e a frase fica por ali.

Se te pedissem uma lista dos teus pontos a melhorar, provavelmente conseguias escrevê-la em poucos minutos. Se te pedissem uma lista daquilo que reconheces fazer bem, a caneta ficaria mais tempo parada.

Muitas vezes, essas qualidades estão presentes. Só não lhes damos a mesma atenção.

Porque vemos melhor o que falta

Imagina um painel coberto de azulejos, com um único em falta. É para esse espaço vazio que o olhar vai, mesmo com centenas de azulejos no lugar. A psicologia chama a isto viés de negatividade: um problema pede resposta, e por isso destaca-se. O que corre bem passa despercebido.

No trabalho, este hábito ganha força. As avaliações falam de áreas de desenvolvimento, as conversas de feedback começam muitas vezes pelo que falhou, e aprendemos a olhar para nós próprios como uma lista de lacunas por preencher.

A Psicologia Positiva propõe outra pergunta. Em vez de olhar apenas para o que falta, olha para o que já está presente e para a forma de o usar melhor. Numa semana em que se assinala o Dia Mundial da Saúde Mental, a 10 de Outubro, vale a pena lembrar que cuidar da saúde mental passa também por reconhecer aquilo que nos sustenta.

O que são forças de carácter

Em 2004, os psicólogos Christopher Peterson e Martin Seligman publicaram uma classificação de 24 forças de carácter, organizadas em seis virtudes: sabedoria, coragem, humanidade, justiça, moderação (a que o VIA chama temperança) e transcendência. É a base do modelo VIA.

Curiosidade, gratidão, perseverança, bondade, sentido de humor, prudência, honestidade são alguns exemplos. Todas as pessoas têm as 24, em combinações diferentes.

As forças de carácter não são o mesmo que talentos. Um talento é algo que fazes bem. Uma força de carácter tem mais a ver com a forma como estás nas situações e com aquilo que te move.

As tuas forças de assinatura

Entre as 24, há algumas que aparecem com mais naturalidade. Peterson e Seligman chamaram-lhes forças de assinatura. Costumam reconhecer-se por três sinais: sentes que fazem parte de quem és, usá-las sai-te com naturalidade e, muitas vezes, deixa-te com mais energia.

São, com frequência, as forças que os outros vêem primeiro e que nós desvalorizamos, porque nos saem sem esforço. O que nos parece normal raramente nos parece especial.

Como descobrir as tuas forças

O VIA Institute on Character disponibiliza gratuitamente o questionário, também em português, em viacharacter.org. Demora cerca de 10 minutos e devolve as tuas 24 forças por ordem.

Algumas indicações para leres o resultado:

  • Começa pelas cinco primeiras. Pergunta-te em que situações recentes apareceram.

  • As últimas da lista não são defeitos nem forças que não tens. Apenas se destacam menos no teu perfil, de acordo com as respostas que deste.

  • Usa o resultado como ponto de partida para reparar, e não como uma definição de quem és.

Uma prática para esta semana

Depois de fazeres o questionário, experimenta isto:

1. Lembra-te de um dia recente que correu bem. Não precisa de ter sido extraordinário. Escreve o que fizeste e procura, entre as tuas cinco primeiras forças, qual estava a funcionar nesse momento.

2. Usa uma das tuas forças de uma forma nova, uma vez por dia, durante sete dias. Se uma das tuas forças é a curiosidade, faz uma pergunta que normalmente não farias numa reunião. Se é a gratidão, diz a alguém em concreto o que valorizaste no trabalho dessa pessoa.

Num estudo de Martin Seligman, quem fez este exercício durante uma semana relatou sentir-se mais feliz nos meses seguintes. O efeito foi maior em quem continuou a praticar por vontade própria.

Olhar para os resultados com alguém

O questionário mostra-te quais são as tuas forças. Perceber onde já as usas e onde as podes usar mais é o passo seguinte.

Se quiseres olhar para os teus resultados com mais calma e perceber como estas forças podem apoiar uma decisão, uma fase de mudança ou a forma como estás no trabalho, podemos conversar.

Uma pergunta para levares contigo

O que é que as pessoas à tua volta te reconhecem e tu continuas a desvalorizar?

Fontes

Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification. Oxford University Press. Mais informação sobre o modelo e acesso ao questionário gratuito em viacharacter.org.

Seligman, M. E. P., Steen, T. A., Park, N., & Peterson, C. (2005). Positive psychology progress: Empirical validation of interventions. American Psychologist, 60(5), 410-421. Ler o estudo

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