O que torna uma equipa emocionalmente inteligente?
Agosto muda um pouco o ritmo de muitas equipas. Há pessoas de férias, reuniões mais pequenas, decisões que ficam à espera, colegas a acompanhar assuntos que normalmente não são seus.
E, quando algumas rotinas habituais mudam, às vezes torna-se mais fácil reparar noutras coisas: quem avança quando falta alguém, quem pergunta antes de decidir, o que acontece quando aparece uma opinião diferente, como reagimos quando algo não corre como esperávamos.
São pequenos momentos. Mas dizem muito sobre a forma como uma equipa aprendeu a funcionar.
Há coisas que uma equipa aprende sem nunca as combinar
Quando falamos de Inteligência Emocional, pensamos normalmente na pessoa: na capacidade de perceber o que sentimos, gerir a nossa resposta, compreender os outros e cuidar das relações. É em torno destas capacidades que Daniel Goleman organiza o seu modelo de Inteligência Emocional.
Mas há uma ideia que ganha um relevo particular quando passamos da pessoa para a equipa: juntar pessoas com boas competências emocionais não garante, por si só, que vão funcionar bem juntas. Com o tempo, uma equipa cria os seus próprios hábitos: percebe o que pode ser dito, como se reage quando alguém discorda, o que acontece quando alguém falha.
Ninguém escreve estas regras numa parede. Formam-se nas pequenas respostas do dia a dia.
É aí que começa a aparecer a Inteligência Emocional de uma equipa: na forma como essas respostas se vão tornando hábitos partilhados. Na maneira como se lida com uma discordância, um erro, a pressão ou uma conversa difícil.
Imagina uma reunião
Quase toda a gente concorda com uma decisão. Há uma pessoa que ainda não disse nada. Podemos avançar. Ou podemos perguntar-lhe o que está a pensar e, mal começa a falar, explicar-lhe porque a decisão já está tomada.
À primeira vista, não parece uma grande coisa. Mas, se isto acontecer vezes suficientes, aquela pessoa aprende alguma coisa sobre a equipa. E as outras também. Aprendem se existe realmente espaço para discordar ou apenas espaço para concordar de formas diferentes.
O mesmo acontece com um erro. A primeira pergunta é "quem fez isto" ou "o que aconteceu"? Quando alguém traz uma dificuldade, encontra curiosidade ou recebe logo uma solução? Quando a pressão aumenta, reparamos que a conversa mudou de tom, ou continuamos como se nada estivesse a acontecer?
Nenhum destes momentos, por si só, define uma equipa. É a sua repetição que vai construindo a maneira como uma equipa está junta.
Inteligência Emocional não é estar sempre de acordo
Uma equipa emocionalmente inteligente não é uma equipa onde está sempre tudo bem. Isso seria pouco realista. Há dias difíceis, pressão, decisões que não agradam a todos, pessoas cansadas, prioridades que chocam, conversas que preferíamos não ter.
A diferença não está em evitar esses momentos. Está na forma como conseguimos estar neles. Se conseguimos discordar sem transformar a outra pessoa no problema, reparar que estamos a reagir antes de subir ainda mais o tom ou ouvir uma perspectiva diferente sem já estar a preparar a resposta.
Às vezes, essa Inteligência Emocional aparece numa pergunta simples: "O que é que se está a passar aqui?" Não para parar o trabalho. Mas para perceber o suficiente para continuar melhor.
E há vida para além da nossa equipa
Uma equipa pode funcionar muito bem internamente e, ainda assim, ter uma relação difícil com as equipas à sua volta. "Eles nunca percebem.", "Com aquela área é sempre complicado.", "Já sabemos como isto vai acabar." Quanto mais forte é o sentido de "nós", mais fácil é começar a olhar para os outros como "eles".
A Inteligência Emocional também passa por tentar perceber o que está do outro lado: o que é que a outra equipa está a tentar proteger, que pressão pode estar a sentir, que informação tem que nós não temos. Não para concordarmos com tudo, nem para desistirmos daquilo que precisamos. Apenas para perceber melhor antes de concluir.
O que se tornou normal?
Esta é talvez a pergunta que vale a pena levar daqui.
Bons processos, reuniões bem estruturadas e responsabilidades claras ajudam. Mas uma equipa também se constrói no que repete todos os dias: no espaço que dá a uma opinião diferente, na forma como reage a um erro, no que faz quando percebe que uma conversa já não está a ajudar ninguém.
A Inteligência Emocional de cada pessoa conta. Mas há outra camada que também merece atenção: aquilo que estamos a construir entre nós.
Este é o primeiro de três artigos sobre Inteligência Emocional. No próximo, vou olhar para um momento muito comum nas equipas: a diferença entre aquilo que aconteceu e a interpretação que fazemos do que aconteceu.
Para já, fica uma pergunta para esta semana: na tua equipa, o que se tornou normal sem nunca ter sido verdadeiramente combinado?
Mapa da Inteligência Emocional
Um ponto de partida para olhar para a Inteligência Emocional, da pessoa à equipa.