Quando o tempo fica em aberto

Os primeiros dias de férias podem trazer um paradoxo estranho. Esperávamos sentir alívio, mas, em vez disso, aparece uma inquietação difícil de explicar. Sem reuniões a preencher o dia, sem prazos a puxar pela atenção e sem uma lista a dizer-nos o que vem a seguir, o tempo abre-se. E esse espaço, que imaginávamos tranquilo, pode chegar primeiro como desconforto.

Porque é que o vazio incomoda antes de libertar

Durante grande parte do ano, os nossos dias são organizados por horários, pedidos, compromissos e tarefas. Esse ritmo pode cansar-nos, mas também nos orienta. Dá forma ao tempo e oferece uma resposta quase automática à pergunta: o que faço agora?

Quando essa estrutura desaparece, como acontece nos primeiros dias de férias, a resposta deixa de estar pronta. De repente, temos tempo, mas não sabemos imediatamente o que fazer com ele. Pode então surgir o impulso de preencher esse espaço o mais depressa possível: planear todos os passeios, arrumar o que ficou por arrumar, responder àquele último email ou aproveitar para adiantar uma tarefa que não era assim tão urgente.

Não necessariamente porque essas coisas precisem de ser feitas, mas porque preencher o tempo parece mais familiar e seguro do que deixá-lo em aberto. Estamos tão habituados a avançar com uma direcção definida que a ausência de um plano pode ser sentida como um problema a resolver, em vez de um espaço a viver.

O que pode aparecer quando o ritmo abranda

Quando não corremos imediatamente a ocupar todos os espaços, começamos a reparar noutras coisas. Pode aparecer o cansaço que só agora encontra condições para se fazer sentir. Pode surgir uma pergunta sobre o ritmo dos últimos meses: quero continuar desta forma quando regressar?

Também pode aparecer a vontade de estar sozinho, de conversar com alguém, de caminhar sem destino, de dormir mais ou simplesmente de não fazer nada durante algum tempo. Por vezes, aparece apenas silêncio. E, para quem passou meses entre estímulos, decisões e solicitações, o silêncio também pode causar estranheza.

Nada disto precisa de ser interpretado ou resolvido de imediato. Pode ser apenas informação que não conseguíamos escutar enquanto estávamos em movimento. Quando o ritmo abranda, aquilo que estava abafado pela urgência do dia-a-dia ganha espaço para se tornar mais visível.

Deixar o espaço existir antes de o preencher

A proposta não é passar as férias sem planos, nem transformar o descanso em mais um projecto que precisamos de executar bem. É apenas criar algum espaço entre o momento em que o tempo se abre e o impulso de decidir imediatamente o que fazer com ele.

Esse intervalo permite ao corpo abrandar, à atenção deixar de saltar de tarefa em tarefa e a cada pessoa perceber o que realmente lhe apetece ou faz falta. Em vez de preencher os dias por hábito, podemos começar por escutar e só depois escolher.

Uma micro-prática para os primeiros dias

Escolhe uma manhã ou uma tarde em que não tenhas um plano definido. Antes de decidires o que fazer, pára durante três a cinco minutos. Podes sentar-te, ficar de pé junto a uma janela ou dar alguns passos sem levares o telefone contigo.

Repara no que aparece quando não há nada que tenhas de fazer naquele momento. Pode ser um impulso de organizar alguma coisa, um cansaço que só agora se torna visível, uma inquietação difícil de nomear ou uma ideia que regressa repetidamente.

Não precisas de resolver, explicar ou transformar o que surgir. Limita-te a reparar. Depois, decide conscientemente o que queres fazer com esse tempo, não para fugires do espaço, mas porque escolheste preenchê-lo dessa forma.

Para levares contigo

As férias sem agenda não são apenas uma pausa na rotina. Podem ser uma oportunidade rara para te encontrares com o teu próprio ritmo, sem pressa nem exigência.

Aquilo que surge quando o tempo abranda não precisa de ser resolvido nem transformado de imediato. Pode simplesmente ser escutado, com curiosidade e sem julgamento.

Talvez o mais importante não seja o que fazes com esse espaço, mas o facto de te permitires estar nele. E, a partir daí, escolher com mais clareza o que queres levar contigo quando o ritmo voltar.

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