Quando liderar deixa de ser fazer mais

Há um momento em que continuar a fazer mais deixa de ser a resposta certa.

Há uma frase que ouço, de formas diferentes, em quase todas as sessões de coaching com pessoas que lideram equipas. Muda o contexto, muda a pessoa, mas o fundo é sempre o mesmo: uma lista de tarefas que ninguém mais parece poder resolver a não ser eles próprios.

E por trás dessa lista, uma pergunta que quase nunca chega a ser dita em voz alta: até quando é que isto é sustentável?

No início da carreira, fazer mais costuma funcionar. É visível, é valorizado, e dá resultado. Mas há um ponto de viragem que poucas destas pessoas reconhecem a tempo: chega uma fase em que fazer mais deixa de ser a alavanca certa. E continuar a puxar por essa alavanca só traz mais cansaço, não mais resultado.

O sinal que costuma passar despercebido

Não é o volume de trabalho que assinala esta mudança. É o tipo de esforço.

Se sentes que estás sempre a resolver, a decidir por todos, a acompanhar de perto tudo o que a equipa faz, isso já não é liderança em crescimento. É liderança em sobrecarga.

O paradoxo é este: quanto mais quem lidera a equipa faz, menos espaço a equipa tem para aprender a fazer. E quanto menos a equipa aprende, mais quem lidera sente que precisa de fazer.

É um ciclo que se alimenta a si próprio.

Liderar bem não é o mesmo que estar sempre disponível

Há uma confusão comum entre presença e sobrecarga. Presença é estar acessível quando é preciso, com clareza sobre o que se espera. Sobrecarga é estar sempre a intervir, mesmo quando não era preciso.

Em vez de perguntares se estás a fazer o suficiente, experimenta perguntar isto:

O que estou a fazer que já não devia estar nas minhas mãos?

Esta pergunta incomoda, porque obriga a reconhecer que algumas das coisas que fazemos hoje não são já as que mais valor trazem à equipa ou à organização.

O que muda quando quem lidera deixa de fazer mais

Não se trata de fazer menos por cansaço. Trata-se de fazer diferente, com intenção.

  • Definir com clareza o que cada pessoa decide sozinha, sem precisar de validação.

  • Criar momentos fixos de acompanhamento, em vez de intervir a qualquer hora.

  • Confiar num primeiro erro como parte do processo de aprendizagem da equipa, em vez de o evitar a todo o custo.

Nenhum destes pontos é sobre abdicar de responsabilidade. É sobre deslocar onde a responsabilidade de quem lidera a equipa faz mais diferença: menos na execução, mais na direcção.

O custo de continuar a fazer mais

Quando quem lidera continua a fazer mais do que devia, paga um preço, e a equipa também.

Perde tempo e energia que devia estar a usar noutro nível: visão, decisões estratégicas, desenvolvimento das pessoas. A equipa perde autonomia, iniciativa e, com o tempo, motivação, porque aprende que não vale a pena decidir se quem lidera acaba sempre por decidir de novo.

Nenhuma das partes ganha com isto. Mesmo que, no imediato, pareça que tudo corre melhor porque quem lidera tem tudo controlado.

Uma pergunta para levares contigo

Fica aqui uma pergunta para levares contigo esta semana:

O que fazes hoje que já devia estar nas mãos de outra pessoa?

Não precisas de responder a tudo de uma vez. Basta escolher um ponto e começar a soltá-lo, com clareza e acompanhamento, não por abandono.

Liderar deixa de ser fazer mais quando percebes que o teu papel já não é somar tarefas. É multiplicar capacidade nos outros.

Para te ajudar a responder a esta pergunta, criei o Mapa das 3 Zonas.

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