O “sim” que te sai caro: como decidir com clareza em 90 segundos
Há um tipo de “sim” que parece pequeno no momento… mas que sai caro depois.
Chega um pedido em cima da hora. Tu queres ajudar. Queres ser disponível. Queres evitar tensão.
Dizes sim quase sem pensar.
E passados 10 minutos já estás a sentir o custo: irritação, pressa, o dia a descarrilar…
Não por falta de capacidade. Por falta de espaço antes da resposta.
Isto não é um tema de produtividade. É Inteligência Emocional aplicada: perceber o estado em que estás e escolher a resposta antes de o piloto automático escolher por ti.
O objectivo não é dizer “não”.
É decidir com clareza, para o teu sim ser verdadeiro e sustentável.
O que está a acontecer, na prática
Quando estás cansado, em pressão ou com o dia apertado, há três coisas que tendem a aumentar:
Reactividade: respondes rápido para “despachar”;
Agradar: dizes “sim” para evitar desconforto;
Justificação: começas a explicar demais para te sentires “autorizado”.
O resultado é o mesmo: ficas sem energia e com menos confiança na tua própria palavra.
A solução não é ter a frase perfeita.
É ter um critério simples para decidir na hora.
Roteiro 90s de Clareza: Facto | Limite | Próximo passo
Da próxima vez que sentires pressão para responder, faz este ciclo. Demora menos do que parece.
1) Facto
O que é verdade agora, sem drama?
tempo disponível real
carga actual
energia
compromissos já assumidos
2) Limite
O que não é negociável hoje?
qualidade mínima
descanso
compromissos pessoais
foco numa entrega
saúde e ritmo
3) Próximo passo
O que é possível, com respeito por ti e pelo outro?
alternativa
timing
entrega parcial
encaminhar para outra pessoa
transformar pedido em conversa curta
Isto cria uma coisa rara no dia a dia: uma resposta que não nasce de culpa nem de urgência.
Exemplo real 1: trabalho (pedido urgente em cima de um dia cheio)
Estás a fechar um trabalho importante. Já tens duas reuniões. Recebes mensagem:
“Consegues rever isto hoje? É rápido.”
Se respondes no automático, dizes “sim” e ficas a correr atrás do prejuízo o resto do dia.
Aplicando o modelo:
Facto: hoje já estás no limite e tens que entregar um trabalho importante.
Limite: não vais comprometer a qualidade do que já prometeste.
Próximo passo: clarificar prioridade e oferecer uma alternativa concreta.
Resposta possível (sem discurso):
“Hoje não consigo pegar nisto com atenção. Se for prioridade, diz-me o que pode sair para isto entrar. Caso contrário, vejo amanhã de manhã.”
O ponto não é a frase. É o comportamento: pedes clareza, proteges o limite, ofereces caminho.
Exemplo real 2: família (hora crítica, pedido que parece pequeno mas desorganiza tudo)
Estás a 30 minutos de sair para buscar os miúdos, tens um jantar para preparar, e ainda tens de fechar uma coisa do trabalho.
Recebes uma mensagem do teu parceiro(a) ou de um familiar:
“Olha, afinal preciso que passes no supermercado e vás aos Correios antes de ires buscar os miúdos, porque eu não vou conseguir.”
Isto não é um pedido “mau”. É a vida a acontecer.
O problema é responder no impulso e depois ficares a carregar a tensão.
Aplicando o modelo:
Facto: já estás com o tempo contado, em hora de transição.
Limite: não vais transformar a saída de casa numa corrida que te deixa reactivo e sem paciência.
Próximo passo: escolher o que é possível hoje e adiar o resto sem culpa.
Resposta possível (curta e clara):
“Consigo fazer uma dessas coisas. Qual é a mais importante hoje: Correios ou supermercado? A outra fica para amanhã.”
Repara no que acontece aqui:
não recusas a pessoa
não “engoles” tudo
não justificas
introduzes uma decisão simples e partilhada
Isto é Inteligência Emocional em casa: reduzir ruído e proteger o estado com que chegas à tua família.
O erro que alimenta o desgaste: justificares demais
Quando te sentes culpado, a tendência é explicar.
Só que explicação longa tem um efeito colateral:
transforma o teu limite numa negociação.
Regra prática:
Se a tua resposta se está a tornar “discurso”, volta ao roteiro e escolhe o próximo passo.
Clareza é mais respeitosa do que desculpas intermináveis.
Micro prática (2 minutos): treinar antes de precisares
Hoje, faz isto uma vez, sem stress.
Pensa num pedido típico que te apanha em pressão.
Escreve três linhas:
Facto: (…)
Limite: (…)
Próximo passo: (…)
Se quiseres acrescentar um pequeno gesto de regulação, antes de responder (para reduzir reactividade), escolhe um:
pés bem assentes no chão, pressiona ligeiramente os calcanhares, como se “ancorasses” o corpo;
soltar os ombros uma vez, como quem baixa o volume do corpo;
língua no céu da boca, atrás dos dentes, para relaxar o maxilar e reduzir tensão.
Não é para parecer zen. É para criares um segundo de escolha.
Fecho
O teu problema não é dizer “sim”.
É dizer “sim” no momento errado, com o estado errado, e depois pagares o custo em energia e paciência.
Quando decides com Facto, Limite e Próximo passo, o teu “sim” fica mais verdadeiro.
E o teu “não”, quando for preciso, vem com menos tensão.
Se quiseres levar isto contigo
Se quiseres tornar isto ainda mais simples no dia a dia, preparei um PDF de 1 página:
“Decidir com clareza em 90 segundos: Facto | Limite | Próximo passo”
Inclui o modelo, perguntas de critério e exemplos comentados para trabalho e vida pessoal.
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